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RH estratégico: você já ouviu falar, mas viu funcionando?

O termo tem 30 anos e virou cargo antes de virar prática. O que Ulrich propôs, onde a implantação costuma emperrar e o que sustenta a mudança quando ela dá certo.

Pergunte em qualquer empresa de médio ou grande porte se o RH é estratégico. A resposta será sim. Pergunte em seguida qual decisão de negócio dos últimos 6 meses mudou por causa de uma análise vinda do RH. O silêncio nessa segunda pergunta é o tema deste texto.

Não é hipocrisia. É um conceito que ficou famoso mais rápido do que virou prática.

De onde vem a ideia

O termo tem autoria e data. David Ulrich publicou Human Resource Champions nos anos 1990 com uma crítica direta: a atuação do RH era transacional, funcional e tecnicista demais, e por isso pouco estratégica. [1] A proposta dele não era abandonar a operação, era acrescentar camadas.

No modelo de múltiplos papéis, o profissional de RH atua em 4 frentes simultâneas: parceiro estratégico, especialista administrativo, defensor dos funcionários e agente de mudança. [2] A palavra-chave é simultâneas. Ulrich foi explícito sobre o risco de escolher um lado:

Se o RH permanecer no nível transacional, o departamento se tornará pouco produtivo e ineficiente ao negócio. Se o RH for estratégico, mas não tiver a capacidade de realizar tarefas operacionais, ele perderá credibilidade.

David Ulrich, citado em análise sobre o modelo HR Business Partner [3]

Essa frase é o resumo de 30 anos de tentativa e erro. Os 2 modos de falhar estavam mapeados desde o começo, e as empresas seguiram encontrando os 2.

O que costuma acontecer na prática

A implantação típica segue um roteiro reconhecível. A empresa cria a posição, escolhe pessoas do próprio time de RH, distribui cada uma para atender um conjunto de áreas e renomeia a função. 6 meses depois, o business partner está fazendo o que fazia antes, com um cartão de visita novo e mais reuniões na agenda.

Pesquisas sobre implantações do modelo no Brasil apontam 2 causas recorrentes: falta de preparo do profissional e da organização para operar o modelo, e a permanência do RH em um papel funcional ou apenas consultivo, o que faz a área continuar sendo vista como executora de demandas. [4] É a figura que Ulrich queria superar, o RH como tirador de pedidos. [1]

Há também uma armadilha mais silenciosa. O modelo pressupõe que alguém continue tocando a operação com excelência, normalmente por meio de serviços compartilhados e centros de especialidade. [5] Quando a empresa promove os generalistas a parceiros estratégicos sem estruturar quem cuida da rotina, a rotina não desaparece: ela volta, com urgência, para a mesa de quem deveria estar pensando. E rotina sempre ganha de estratégia numa disputa por atenção, porque rotina tem prazo.

O que separa quem consegue

Nas empresas onde o RH efetivamente participa das decisões, 4 coisas costumam estar no lugar. Nenhuma delas é o organograma.

01
A operação está resolvida, não abandonadaFolha correta, admissão no prazo, dúvida respondida, desligamento sem pendência. Isso não é o teto da ambição, é a licença para ter ambição. Credibilidade em RH se constrói na coisa chata: quem erra a folha não é convidado para discutir estratégia.
02
Existe dado de pessoas em condição de usoRotatividade por área e por gestor, tempo de preenchimento de vaga, custo real de uma contratação errada, absenteísmo cruzado com turno e com liderança. Ulrich apontava que um dos objetivos do modelo era justamente mensurar os resultados da área. [1] Sem número, a conversa do RH na reunião de diretoria é a única baseada em percepção, e perde.
03
O RH conhece o negócio, não apenas as pessoas do negócioNuma construtora, isso significa entender o que é uma medição, por que o cronograma escorrega, qual o custo de uma equipe parada esperando material, como funciona a rotatividade em canteiro. Falar a língua do negócio é pré-requisito para influenciar. [3]
04
A liderança direta é tratada como o produtoA maior parte do que se atribui a cultura é, na prática, comportamento de gestor imediato. Um RH estratégico investe desproporcionalmente em quem lidera equipes, porque é ali que a política escrita se transforma em experiência real. O resto é comunicação interna.

Uma pergunta que revela o estágio

Existe um teste rápido, e não é uma pesquisa de clima. É este: quando a empresa toma uma decisão que afeta pessoas, o RH participa da formulação ou da comunicação?

Abrir uma frente nova, mudar a estrutura de uma diretoria, terceirizar uma atividade, apertar o orçamento de uma obra. Se o RH descobre na hora de operacionalizar, o modelo não está implantado, independentemente do que diga o cartão. Se o RH está na sala quando a decisão é desenhada, trazendo o custo e o risco humano da escolha, está.

E há um detalhe honesto sobre isso: o assento nessa mesa não se pede, se conquista com utilidade demonstrada. Ulrich escreveu que o RH deveria antecipar demandas e sugerir iniciativas com impacto direto no negócio. [3] Antecipar exige olhar para fora, para o cliente, o investidor, o mercado, e traduzir isso em ação interna, o que Ulrich chamou de RH de fora para dentro. [4]

O ponto de partida realista

Se você quer mover o RH da sua empresa nessa direção, o caminho mais curto não é reestruturar a área. É escolher um problema de negócio que dói e resolvê-lo com dado de pessoas.

Rotatividade num setor específico. Tempo de preenchimento de uma vaga crítica. Absenteísmo numa obra. Um problema, medido de verdade, com uma hipótese, uma intervenção e um resultado apresentado em número. Isso muda a percepção sobre a área mais rápido do que qualquer projeto de transformação, porque cria o único ativo que sustenta a conversa estratégica: histórico de acerto.

30 anos depois de Ulrich, o problema não é mais de conceito. O conceito está disponível, documentado e testado. O que continua escasso é a execução, e execução em gestão de pessoas começa por saber o que está acontecendo.

Como aplicar isso na sua empresa

01 Conte quantas planilhas hoje respondem "quem trabalha aqui". Se for mais de uma, você tem mais de uma verdade.
02 Verifique se os profissionais PJ aparecem no organograma. O que não aparece não é gerido.
03 Defina qual decisão de gestão você não consegue tomar hoje por falta de dado de pessoas. Ela é a sua prioridade.

Escrito pela equipe do HIRIS. No SiPeople, PJ, CLT e terceiros existem na mesma base.

Referências

  1. [1]Sobre a criação do modelo HR Business Partner em Human Resource Champions e o objetivo de mensurar resultados: Melissa Lemos, LinkedIn
  2. [2]Sobre o modelo de múltiplos papéis de Ulrich (1998) e suas 4 funções, em artigo acadêmico: Perspectivas em Ciência da Informação, SciELO
  3. [3]Citação de Ulrich sobre RH transacional e credibilidade, e sobre as expectativas do negócio quanto ao parceiro estratégico: LinkedIn
  4. [4]Sobre dificuldades de implantação do modelo no Brasil e o conceito de RH de fora para dentro: UFPR, acervo digital
  5. [5]Sobre a estrutura do modelo operacional de Ulrich (parcerias estratégicas, centros de excelência, serviços compartilhados e agentes de mudança): 3ClicksRH
  6. [6]Sobre os limites práticos do modelo em implantações reais: Exame

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